NÃO CONFUNDA TESTES PADRONIZADOS COM PROVAS
- SABELETRAS

- 15 de dez. de 2025
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Em discussões e publicações sobre avaliação, é bastante comum encontrarmos menções à provas e testes padronizados lado a lado. Muitas vezes, fica a impressão de que o autor até mesmo utiliza essas palavras como sinônimos. A discussão com frequência ocorre em contextos em que se criticam as provas e os testes padronizados em favor de formas 'alternativas' de avaliação, que oferecem um potencial mais formativo e processual das práticas de avaliar. Mas há duas questões importantes que precisam ser esclarecidas sobre este assunto. A primeira tem a ver com a relação entre instrumentos e a modalidade de avaliação (somativa, formativa, diagnóstica etc.). A segunda questão diz respeito à própria diferença entre provas e testes padronizados. Vamos começar pela primeira questão.
De forma bem simples, podemos dizer que não se pode estabelecer uma relação direta entre instrumentos e modalidades de avaliação. O uso de instrumentos diversificados, alternativos, processuais não garante que uma avaliação seja formativa. Isto não quer dizer que o instrumento não importa. A questão é que, para que o uso do instrumento alcance seu objetivo, é necessário utilizá-lo de maneira adequada. Por exemplo, o uso de atividades diversas, portfólios ou projetos - em substituição às provas tradicionais - só será bem-sucedido se estes instrumentos forem usados formativamente. Há sempre o risco de usá-los numa lógica somativa. Pode se dizer o mesmo se o objetivo for utilizar provas em uma lógica somativa. O resultado só será confiável se a tal prova for bem elaborada e bem utilizada para produzir as informações necessárias para que o professor tome sua decisão.
Em resumo, além de escolher seus instrumentos, os professores precisam cuidar para que estes sejam bem utilizados, ou terão simplesmente resultados enganosos. Este é o motivo porque não se pode abrir mão de alguma concepção de validade, independentemente dos instrumentos e modalidades de avaliação. Digo 'alguma concepção de validade' porque este conceito não é estático e pode ser pensado de modo a ser compatível com diferentes modalidades de avaliação. Por exemplo, não se requer que a validade esperada ao se utilizar portfólios seja a mesma daquela dos testes padronizados. Mesmo assim, alguma preocupação com a validade deverá (e estará) presente na prática docente. (Para definições de tipos de avaliação, veja https://www3.seduc.mt.gov.br/avaliamt/tipo-de-avaliacoes e http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1809-43092010000200002&lng=pt&nrm=iso).
O ponto anterior já nos aproxima da segunda questão: a diferença entre provas e testes padronizados. Um motivo porque projetos, portfólios, atividades avaliativas e até mesmo provas não podem apresentar validade do mesmo modo que os testes padronizados está justamente nas diferenças gigantescas entre estes instrumentos e seus diversos processos de produção, aplicação e uso. Se, por um lado, os professores têm bastante trabalho ao desenvolver qualquer atividade de avaliação, por outro lado, os testes padronizados requerem controle de todas as fases de sua produção e uso, diversas equipes e a utilização de técnicas estatísticas para garantir sua qualidade. E é por isso que os testes padronizados (às vezes chamados de exames) também não podem ser confundidos com provas.
Pense nisto: as provas são um instrumento de avaliação produzido pelo professor, que muitas vezes considera particularidades de seus estudantes e o processo de ensino e aprendizagem vivenciado com eles para elaborar o instrumento. Já os testes padronizados são o resultado de agentes externos - muitas vezes governos e empresas - que elaboram seus instrumentos sem considerar o contexto local de professores e alunos. Além disso, os professores costumam ser mais intuitivos na elaboração e uso de seus instrumentos, ao passo que os testes padronizados seguem diretrizes próprias de uma engenharia de avaliação. É inteiramente possível que provas façam parte de uma proposta de avaliação formativa (como também somativa). Além disso, existem diferentes tipos de prova (tradicional; discursiva, objetiva ou mista; com consulta; com opções de questões a responder; com obrigatoriedade de responder todas as questões; em pares; em grupo; para a sala de aula; para fazer em casa etc.). [Em minha experiência docente, já cheguei a aplicar presencialmente uma prova online].
Mas o que tudo isso nos diz sobre qual instrumento é o melhor? Muito pouco ou nada. Como vimos o que importa é a opção pela modalidade de avaliação adequada, e não o instrumento. A avaliação formativa e diagnóstica são evidentemente os caminhos mais promissores para uma avaliação que contribua para o processo de ensino e aprendizagem. É necessário reconhecer, porém, que na maioria dos contextos educacionais de sala de aula existirá algum momento de atividade somativa, que pode não ser por meio de provas (uma apresentação ou seminário, por exemplo, podem - e com frequência são - utilizados somativamente). Além disso, há momentos que a aplicação de uma prova ou exame é a opção viável em contextos educacionais, tais como na admissão de estudantes, em seleção de bolsas, vagas de monitoria ou aproveitamento de estudos. É sempre preciso considerar as condições do contexto.
Embora os testes padronizados possam ter impactos muito negativos sobre a educação, há também lugar para seu uso, contanto que eles não constituam o meio mais importante e predominante de avaliação. Na verdade, até mesmo os testes padronizados podem ser incluídos em uma proposta de avaliação formativa, o que não significa que devam sempre estar presentes. O ideal da avaliação é o recurso a diversos instrumentos organizados de forma integrada e coerente em um processo avaliativo elaborado de forma consciente e bem fundamentada. Um processo assim apresentará características de validade da avaliação.
Em resumo, é importante não enaltecer este ou aquele instrumento como sendo sempre o único adequado. É o inteiro projeto de avaliação que deve orientar a escolha dos instrumentos. É também fundamental não confundir provas com testes padronizados, sabendo que são não apenas instrumentos distintos, mas também resultam de diferentes processos de elaboração e produzem resultados que servem a objetivos diferentes.


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